“A caridade é amor recebido e dado; é graça (cháris). A sua nascente é o amor fontal do Pai pelo Filho no Espírito Santo. É amor que, pelo o Filho, desce sobre nós. É amor criador, pelo qual existimos; amor redentor, pelo qual somos recriados. Amor revelado e vivido por Cristo (cf.Jo13,1), é ‘derramado em nossos corações pelo Espírito Santo’ (Rm 5,5). Destinatários do amor de Deus, os homens são constituídos sujeitos de caridade, são chamados a se tornarem eles mesmos instrumentos da graça, para difundir a caridade de Deus e tecer redes de caridade”.[3]

Etimologia

A palavra amor presta-se a múltiplos significados na língua portuguesa. Pode significar afeição, compaixão, misericórdia, ou ainda, inclinação, atração, apetite, paixão, querer bem, satisfação, conquista, desejo, libido. O conceito mais popular de amor envolve, de modo geral, a formação de um vínculo emocional com alguém, ou com algum objeto que seja capaz de receber este comportamento amoroso e enviar os estímulos sensoriais e psicológicos necessários para a sua manutenção e motivação

A Igreja Católica, nos ensinamentos do seu Magistério, afirma que o Amor é uma virtude teologal, uma “dádiva de si mesmo” e “é o oposto de usar”  e de afirmar-se a si mesmo. Aplicado nas relações conjugais humanas, o Amor verdadeiramente vivido e plenamente realizado é uma “comunhão de entrega e receptividade”, de “dádiva mútua do eu e de afirmação mútua da dignidade de cada parceiro”. Esta comunhão “do homem e da mulher” é “um ícone da vida do próprio Deus” e “leva não apenas à satisfação, mas à santidade“. Por esta razão, a sexualidade (e o sexo), que “é fonte de alegria e de prazer“, não exerce só a função de procriar, mas também um papel importante na vida íntima conjugal. A relação sexual conjugal é considerada como a grande expressão “humana e totalmente humanizada” do Amor idealizado pela Igreja, onde o homem e a mulher se unem e se complementam reciprocamente. Todo este amor conjugal proposto pela Igreja requer fidelidade, “permanência e compromisso”, que só pode ser autenticamente vivido “no seio dos laços do matrimônio“ e na castidade conjugal. A compreensão cristã é que o Amor vem de Deus, porque o amor é uma virtude teologal. Amor: Etimologicamente provém do latim amor, amóris, amorem, designando amizade, afeição, desejo grande, paixão, objeto amado[4]. Amor: designado como forte afeição por outra pessoa, nascida de laços de consanguinidade ou de relações sociais; atração baseada no desejo sexual, desejo grande, afeição amorosa, paixão; relação amorosa; namoro; afeição baseada em admiração e graça, benevolência ou interesses comuns; forte amizade.  Designa a devoção e adoração a Deus ou ainda a devoção de uma pessoa ou um grupo de pessoas por um ideal concreto ou abstrato, seja a pátria, a profissão, a vocação, e a demonstração de zelo, de dedicação a um ideal. Ma mitologia grega e romana Amor era o nome de um deus que personificava o amor: Cupido para os romanos, Eros para os gregos, divindades aladas infantis subordinadas a Vênus e a Cupido. Pode ainda ser sinônimo de namoro e querido e antonímia de desinteligência, desprezo, indiferença e repulsão. Em nossa cultura amor possui diversos aspectos e conotações, segundo o sentido etimológico que veremos a seguir. “A palavra amor requer sempre um dicionário, e, para os cristãos o dicionário é Cristo Jesus”.

A caridade é o fundamento da ascética cristã. É o bem perfeito do espírito que excede a todos os bens. A caridade, embora seja uma virtude teologal, isto é, infundida por Deus na alma fiel, requer muito empenho e esforço humano para ser levada à plenitude. O amor-caridade precisa percorrer um caminho de purificação, que resgate o seu verdadeiro sentido. Ele não é apenas filantropia nem tampouco banalização da pessoa humana, mas sim virtude, força que vem de Deus e inebria o coração do homem e da mulher.

“A caridade não é só virtude a ser realizada, mas caminho a ser percorrido, itinerário espiritual pelo qual, sob a direção do Espírito Santo, podemos aproximar-nos de Deus e de suas perfeições morais. O apóstolo Pedro, exortando a praticar as virtudes cristãs, afirma: ‘Aplicai toda a diligência em juntar à vossa fé a virtude, à virtude o conhecimento, ao conhecimento o autodomínio a perseverança, à perseverança a piedade, à piedade o amor fraternal e ao amor fraternal a caridade’ (2Pe 1,6-7). E o apóstolo Paulo, depois de haver falado de alguns sinais da vida nova que  o crente realiza em Cristo (benignidade, humildade, bondade, perdão…), conclui dizendo: ‘Mas antes de tudo, revesti-vos de caridade, que é o vínculo da perfeição (Cl 3,14). A escola agostiniana ao pôr na caridade a base da espiritualidade, articula-a em ‘caridade desejosa’, ou seja, ansiosa por adaptar-se ao Ser supremo; ‘caridade ascendente’, que nos conduz gradualmente aos cumes da perfeição; ‘caridade combatente’, que contraria as inclinações más; e, finalmente, ‘caridade geradora’, que, partindo da premissa da caridade com Deus alimentada pela oração, pela humildade e pelo recolhimento, aponta como sinal de maturidade espiritual a caridade para com o próximo. Trata-se da possibilidade de nos referirmos ao Tu divino para transferir este Tu ao tu de nosso próximo. Assim a perfeição cristã na caridade se converte em imitação de Cristo (2Co 8,9) e em identificação de Cristo com nosso próximo (Mt 25, 35-40). Este é o caminho agradável a Deus ‘como oferenda de suave odor’ (Fl, 4,18). Este amadurecimento espiritual na caridade é indispensável não só para a vida do crente, mas também para a Igreja: ‘Se a fé e a caridade são os princípio da sua vida (a da Igreja); é claro que não se deve descuidar nada para dar à fé a segurança jubilosa e o alimento novo, a fim de tornar eficaz a iniciação e a pedagogia cristã indispensável para este fim: estudo mais assíduo e o culto mais devoto da Palavra de Deus serão certamente fundamento desta renovação. E a educação na caridade terá posteriormente lugar de honra; teremos que desejar ansiosamente a ecclesia caritatis, se quisermos que esteja em condições de renovar-se profundamente e de renovar o mundo que a rodeia; tarefa imensa, até porque, como se sabe, a caridade é a rainha e  a raiz das outras virtudes cristãs: a humildade, a pobreza, a religiosidade, a coragem da verdade e o amor da justiça e de todas as outras formas operantes do homem novo’”.[15]

“Nos sinóticos, as passagens em que se fala do amor de Deus e da relação entre Deus e o homem e entre um e outro, culminam sempre na exortação à misericórdia e ao espírito de reconciliação. Esta misericórdia de Deus se expressa no perdão dos pecados, que deve suscitar por parte do homem uma atitude idêntica para com o próximo (Mt 6,12.14-15; 18,35; Lc 6,37 etc.) Nos escritos de João ‘ o amor é concebido como energia primordial da vida, modo de ser, realização de Deus neste mundo’. Eles apresentam o amor em seu sentido absoluto (1Jo 3, 14.18; 4,7-8.19) e em seu aspecto de amor fraterno (1Jo 2,10; 3,10; 4,20 etc.) como o cumprimento e o selo de autenticidade de toda a vida cristã. Para João, o amor é a pedra angular do reino de Cristo, que se vai realizando na crise do mundo (Jo 3,16). Ele acentua o amor do Pai ao Filho, que em tudo e por tudo o mediador do amor divino, e enfatiza o amor do Filho por aqueles que o Pai lhe deu como ‘amigos’. Coroamento e fonte deste amor é o sacrifício do Filho, por meio do qual Deus realiza plenamente a salvação do mundo (Jo 13,1). Ao realçar o caráter ativo, em Cristo, do amor de Deus, João insiste no amor ao próximo, que tem em Cristo seu modelo e sua fonte. O Apocalipse, aberto com hino entoado pela fiel testemunha de Cristo àquele ‘que nos ama e nos lavou de nossos pecados’, vê o amor sobretudo à luz da teologia do martírio (12,11).

Mãos e Coração Estendido